Todas as partes envolvidas precisam entender a importância desse recurso e dialogar, discutir e juntar esforços de modo a garantir, de modo colaborativo, não só o uso sustentável da água, mas o aumento da água doce disponível

 

agua

Crédito da imagem: freepik.com

 

Hoje em dia, tem-se falado muito em visão sistêmica. Mas, infelizmente, raramente vemos essa metodologia sendo posta em prática de modo eficaz e colaborativo. Ela nos proporciona uma perspectiva global e, ao mesmo tempo, simplificada dos macroprocessos, ajuda a identificar os pontos críticos sobre os quais devemos atuar. Para demonstrar como essa abordagem pode contribuir para solucionar muitos dos desafios que temos pela frente, é só utilizarmos a questão da água como exemplo.

Para compreendermos melhor a crise pela qual ainda estamos passando, o primeiro passo é saber quanto deste recurso existe à nossa disposição. Apesar de o planeta possuir um enorme volume de água, cerca de 97% dele é salgada. O volume de água doce disponível é relativamente muito pequeno, principalmente se considerarmos o aumento da população da Terra. Além disso, cerca de 85% da água doce existente está nas geleiras e nos lençóis aquíferos profundos.

Por outro lado, a superfície dos oceanos é muito grande e a atuação do sol sobre ela nos proporciona um processo natural de dessalinização e limpeza da água do mar, em grande escala. Como sabemos, boa parte das nuvens formadas são levadas, pelos ventos, para os continentes, onde caem em forma de chuvas. Assim, a grande estratégia está em aproveitar bem a sabedoria da natureza para reter e aumentar as reservas de água doce disponíveis.

A compreensão de um sistema é limitada pelo ponto de vista do observador ou grupo de observadores. Sob o ponto de vista da visão sistêmica, todas as partes envolvidas, sejam representantes dos governos, legisladores, meios de comunicação, pesquisadores, ecologistas, fazendeiros, sejam industriais e consumidores finais, precisam entender a importância desse recurso e dialogar, discutir e juntar esforços de modo a garantir, de modo colaborativo, não só o uso sustentável da água, mas o aumento da água doce disponível. Existem várias linhas de ação a serem trabalhadas com o objetivo de maximizar o aproveitamento da água doce. Entre elas, podemos citar:

Reeducação/conscientização da população para cuidar bem não só das águas, mas também economizar energia e bens de consumo (uma vez que o recurso natural é utilizada no processo de produção deles);

Os meios de comunicação podem dar uma contribuição ímpar para a evolução cultural da sociedade procurando transmitir, sempre, essa visão mais sistêmica, de modo didático, como uma história;

Disseminação de processos de limpeza e tratamento de esgotos e despoluição de rios, lagos e oceanos;

Tomadas de medidas para a redução de enchentes que provocam perdas e desperdícios.

Água doce

Água

Cataratas do Iguaçu – Imagem: Domínio Público

Além da importância de gerir bem o uso das águas, é preciso falar de uma questão realmente mais estratégica e inovadora: o aumento da quantidade disponível de água doce. Além da construção de açudes e barragens, podemos aumentar a vazão dos rios!

O assoreamento do Rio Doce por conta do rompimento de uma barragem de rejeitos chamou nossa atenção para um fato: O rio já estava morrendo! Nossos rios estão morrendo aos poucos e, por ser lento o processo, não fazemos nada. Ficamos inertes, sem saber o que fazer e a quem apelar. Nossa educação, muito analítica e especializada, nos deixa com uma visão fragmentada em relação aos macrossistemas.

No caso do Rio Doce, o famoso fotógrafo Sebastião Salgado conta que, ao retornar, anos depois, à fazenda que foi de seus pais, viu que muitas nascentes haviam secado e já não havia tantas árvores como em seu tempo de criança. Replantou árvores onde havia as nascentes e as águas renasceram!

Foi uma experiência extraordinária, porque mostrou que, se fizermos isso com todas as potenciais nascentes de toda a Bacia Hidrográfica, elas poderão renascer e poderemos então, de fato, aumentar, e muito, o volume das águas de todos os afluentes. E, portanto, do próprio Rio Doce, fazendo-o retornar para a vida plena.

As árvores e florestas retêm as águas das chuvas de modo que penetrem no solo, formando, além dos lençóis freáticos e rios. E também abastecendo os aquíferos subterrâneos. A vegetação ajuda a evitar as enxurradas e a erosão, que carregam terra – inclusive, de boa qualidade – e assoreiam os rios.

Assim, um item crítico no processo de recuperação de nossos corpos d’água são as árvores e as florestas, que são ao mesmo tempo não só fundamentais à manutenção e aumento do volume de água nos rios, mas ainda ao equilíbrio da atmosfera terrestre e à nossa vida.

Dentro de uma perspectiva sistêmica, é interessante lembrar que as árvores, como todos os seres vivos, também têm o seu ciclo de vida. Como sabemos, as árvores retiram carbono (CO²) do ar e, através da fotossíntese, liberam oxigênio para a atmosfera.

O que pouco se lembra é que esse processo é bem mais intenso quando as árvores estão em crescimento, pois, nessa fase, se utilizam de maiores quantidades de carbono para formarem seus troncos. Quando ficam adultas e maduras, esse ciclo da fotossíntese continua, mas numa escala menor. Após um período de maturidade, as árvores envelhecem e morrem, como todos os seres vivos. Em algum momento, após a maturidade e antes da morte, as árvores poderiam ser colhidas e utilizadas por indústrias madeireiras ecologicamente bem concebidas. Num ciclo de replantio bem planejado, novas árvores estarão crescendo e retirando, novamente, de modo contínuo, mais carbono da atmosfera. É um ciclo virtuoso que regenera os rios e a nossa atmosfera, além de proporcionar trabalho e prosperidade. Além disso, o produto industrializado, como um móvel, por exemplo, poderá reter o carbono em si por muitas gerações.

A grande questão

Por que a sociedade brasileira permanece inerte perante um problema relativamente simples, quando visto sob o prisma da visão de síntese? Sim, uma questão simples, mas extremamente grave em suas consequências para a vida. Por que permanece sem solução? É uma questão de paradigmas! Todos nós fomos educados para usarmos, e usarmos cada vez mais, o pensamento analítico. Que é, indiscutivelmente, muito necessário, pois foi o responsável pelo desenvolvimento tecnológico e industrial quase milagroso dos últimos séculos.

Mas aqui estamos falando do sistema das águas e também de nossa atmosfera. De problemas ecológicos, que envolvem muitas outras ciências, além das próprias ciências exatas. E a análise se torna pobre e mesmo insuficiente para resolvê-los, como estamos vendo. Há falta de visão sistêmica, sintética! E o conhecimento fragmentado é insuficiente para visualizá-las. Precisamos usar cada vez mais a nossa inteligência intuitiva que, para esses assuntos aqui tratados, é bem mais adequada que a análise. A intuição enxerga melhor a interconexão entre as coisas.

Por exemplo: no sistema das águas, como vimos, a questão das árvores e das florestas é fundamental. Entretanto, aqui no Brasil, quando falamos nisso o foco é apenas no combate ao corte de árvores a ao desmatamento. Ninguém fala sobre incentivos ao plantio. E, o que é mais grave, a legislação inibe os proprietários de terra, rural ou urbana, a plantar árvores. Como a fiscalização contra o desmatamento não é tão eficiente, nossos bosques e florestas vão diminuindo…

As chamadas “madeiras de lei”, protegidas em tese pela legislação, estão acabando por influência dela mesma!

É importante combater o desmatamento ilegal. Mas, ao proibir quase que cegamente o corte, nossa legislação torna extremamente improvável o plantio de novas árvores. Se é praticamente impossível a obtenção de autorização de corte de árvores nativas e, mais ainda, das “madeiras de lei”, nenhum proprietário de terra tem motivação para plantar sequer uma árvore (muito menos bosques e florestas) em seu terreno:  fazê-lo equivale a abrir mão do domínio sobre a área plantada.

O que é muito semelhante ao que ocorreu no setor imobiliário, nos anos 1950. Naquela época, a legislação que trata de alugueis havia sido redigida de forma a proteger ao máximo os inquilinos. O problema foi que a rigidez da legislação fez com que o negócio de locação se tornasse pouco atraente. E, com o passar do tempo, o volume de imóveis disponíveis para tal fim ficou imensamente reduzido. Ou seja, a falta de visão sistêmica pode agravar o problema que estamos querendo evitar.

Metologia da qualidade

Em relação ao ciclo da água e às florestas, as leis que tratam do assunto, quealiás são muitas, longas e complexas, precisariam ser revistas com essa visão mais sistêmica e colaborativa para estimular o plantio e reflorestamento de modo harmônico com a ecologia e a atividade econômica.

Ao incentivá-los, e regulamentar o corte planejado e sustentável, teríamos melhores chances de aumentar nossas áreas de florestas e contribuir para a redução do efeito estufa, a da poluição atmosférica e a regeneração do ciclo das águas (consequentemente, com o aumento dos estoques de água doce e volume de vazão dos rios).

A metodologia da qualidade nos ensina a buscar as causas dos problemas e a atuar no sentido de corrigi-las. A mudança de paradigma, da visão fragmentada para outra mais colaborativa e orgânica pode resolver esse impasse e outros que a sociedade brasileira está vivendo. Quanto à água, com diálogo, harmonia e pensamento intuitivo, podemos visualizar os pontos críticos que a estão tornando escassa e, com boa vontade e gestão correta, resolvê-los. Vale a pena fazer isso. É o nosso futuro!


Maurício Roscoe é Engenheiro civil, diretor-presidente da M. Roscoe Engenharia e Construção e da Paraúna Administração, ex-presidente da Fiemg e presidente do Conselho Consultivo da União Brasileira para a Qualidade – UBQ

Artigo publicado na edição nº 91, Julho/Agosto da Revista Ecológico.