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Vivendo Valores nas Organizações

15/07/2013

Ken O’Donnell
da Brahma Kumaris do Brasil 

uebk@uai.com.br

A fase dourada industrial terminou faz tempo. Embora a comunidade empresarial tenha se especializado em gerar trabalho e riqueza, obviamente, ela contribuiu também para as deficiências no sistema do planeta como um todo. Algo que tem tanto impacto na sociedade humana não poderia escapar da responsabilidade inerente desta atividade.

A correria louca para a sobrevivência de países e empresas, principalmente nos últimos vinte anos, deixou evidências vergonhosas de guerras e conflitos, uma biosfera cada vez mais poluída e um número crescente das pessoas humilhadas pelo desemprego e/ou pela exclusão. Ao fazer um estudo sobre 21 civilizações fracassadas do passado – os gregos, os romanos, os egípcios, os incas, os mayas, dentre outros – o historiador inglês, Arnold Toynbee descobriu dois fatores presentes em todos eles – a concentração de poder e propriedade nas mãos de poucos e a inabilidade de fazer as mudanças necessárias antes da hora. Parece familiar?

Na realidade caótica de  hoje, as pessoas mais sensíveis e preocupadas com a direção do mundo estão questionando nossos modelos de poder institucional e pessoal seriamente, como também as formas atuais de progresso e de liderança.

Este cenário paradoxalmente não é ‘anti-negócio’. É um tremendo convite para reinventar a maneira que fazemos e conduzimos negócios para o bem do sistema que sustenta a todos nós. Não é que simplesmente temos que nos ajustarmos à chamada ‘nova economia’ e basta. Seguramente, o furacão do caos político, econômico e social exige respostas e valores diferentes.

Nossa educação formal poderia nos ajudar a nadar bem se a atmosfera de negócios fosse uma piscina de águas tranqüilas. Mas é um mar completamente revolto. As aptidões que precisamos são semelhantes a essas de um surfista. Ele não tenta controlar o oceano, mas desenvolve a paciência para escolher a onda correta, a agilidade para pegá-la e o equilíbrio para não cair. Seu objetivo não é chegar à praia, nem chegar antes dos outros surfistas. É  desfrutar o máximo possível enquanto a onda dura. O desenvolvimento de tais valores – paciência, agilidade e equilíbrio, bem como da responsabilidade social e ambiental das empresas acabam sendo assuntos de sobrevivência num mundo dinâmico, complexo e cada vez mais imprevisível.

Os valores humanos não podem ser simplesmente decretados ou estabelecidos através de um plano estratégico. São frutos de um trabalho no fundo do ser. Uma boa definição de espiritualidade é justamente a prática de valores humanos em situações adversas. Não é sinônimo de religião. Embora pessoas religiosas possam ter um comportamento ‘espiritualizado’, nem sempre é o caso. Por isto, desenvolver a inteligência espiritual na empresa não significa a entrada de rituais estranhos ou sessões de passes.  É o desenvolvimento de verdade dos próprios valores previstos no plano estratégico e que são a base do desempenho de boas equipes de trabalho. Quando o trabalho se move em direção a um propósito compartilhado, elevado e cheio de paixão, ele dá vida ao trabalho em si, ao trabalhador e ao o mundo em que vive. A otimização do potencial humano para trabalhar de forma mais integrada acaba sendo um fator crucial de sucesso ou  fracasso.

Um exemplo disto é a empresa de alimentos, Nutrimental. No princípio dos anos 90, por causa de uma lei nova, ela perdeu seu negócio principal de fornecimento de merenda escolar. Além disso, o governo brasileiro deixou de pagar uma dívida enorme. Sem dinheiro e sem rumo, seu presidente tomou as rédeas e de um modo muito corajoso, decidiu trabalhar com seu capital humano, já que não havia recursos financeiros.

Revolucionou a organização ao introduzir uma forma nova de tomar decisões baseada em diálogos apreciativos e totalmente participativos e partiu para a luta. Num lance de pura inovação criou um produto novo que hoje é lider no Brasil. Em 3 anos entre 1997 e 2000 as vendas cresceram 100%,  mas os lucros 500%! A companhia está agora entre as melhores companhias no Brasil em termos de atmosfera de trabalho. As relações estão baseadas no respeito e na ‘horizontalidade’.  A estrutura ficou extremamente flexível e orgânica de acordo com as necessidades variáveis do mercado.

A crise mundial não só é uma questão de aprender como conservar os recursos naturais ou evitar guerras. É o espírito humano a faísca que falta, que precisa ser acesa novamente.

Os avanços tecnológicos, as expectativas dos consumidores/cidadãos, e as realidades globais estão transformando a forma que as organizações se relacionam interna e externamente. Consequentemente, as abordagens de questões relacionadas à cultura organizacional e ao trabalho estão sofrendo mudanças – às vezes radicais. Os modelos de gestão ultrapassados por sua rigidez estão sendo questionados cada vez mais.

Por isto, quando procuramos melhorias de processos administrativos e produtivos, não podemos esquecer de incluir nos planos estratégicos, um trabalho consciente de desenvolvimento de valores humanos que atinge plenamente os indivíduos que são a base de qualquer organização. Muito além da questão de ganhar ou perder, de números ou de modernização tecnológica, estas virtudes tornam o lugar de trabalho,  onde passamos até um terço das nossas vidas,  mais agradável. E as pesquisas mostram que o lugar que agrada, produz.

Lidar com o caos que atinge todas as instituições, inevitavelmente,  traz novas mudanças na sua cultura organizacional. Justamente por ser nova a paralisia de implementação é comum. Falta de comunicação, falta de compromisso, corporativismo e ceticismo acabam matando os melhores planos.

O programa “VIVENDO VALORES NAS ORGANIZAÇÕES” é sobre o resgate dos valores pessoais e a transformação que isto traz não apenas no nível individual, mas por conseqüência, no nível organizacional.

Elaborar uma lista de qualidades que indivíduos precisam para trabalharem juntos é fácil — respeito, tolerância, humildade, cooperação, confiança, sensibilidade, sinceridade — e assim por diante. No papel parecem maravilhosas. Os pôsteres lindos sobre “os valores da nossa organização” nas paredes e dentro dos elevadores até despertam interesse.

Entretanto, colocá-las na prática requer um entendimento mais profundo além de um esforço pessoal assíduo.

Uma compreensão de valores é essencial no contexto de organizações humanas – públicas e privadas. Não podemos relegar a questão de valores para meras discussões semânticas e demagogia colorida. A sustentabilidade do próprio planeta exige uma urgente reavaliação do que valorizamos e como esses valores devem funcionar nas nossas vidas e trabalhos.

Infelizmente a abordagem típica de processos de desenvolvimento de valores humanos acaba caindo na ingenuidade de achar que instituir um processo de melhorias organizacionais é igual a mudança de comportamento. Apesar da retórica de “trabalho de equipe”, “novos paradigmas”, “prestação de contas”, frequentemente falta uma percepção mais profunda das influências dos sistemas de crença, da cultura histórica e das relações de trabalho que são a base dos comportamentos que precisam ser modificadas.

Neste sentido, não faltam descrições exatas e detalhadas dos processos de mudanças estruturais, mas um novo design da dinâmica comportamental não tem o mesmo enfoque ou potência. Embora o novo jargão das mudanças possa instalar-se, as expectativas comportamentais são prontamente interpretadas por empregados e empregadores como “você não  está fazendo direito”. Isto acaba frustrando uma transformação mais duradoura,  que em essência depende de uma mudança na prática de certos valores.

Através de dinâmicas de grupo, estudos de casos de sucesso, reflexões profundas, diálogos e apresentação de elementos conceituais, o programa “VIVENDO VALORES NAS ORGANIZAÇÕES” procura estimular uma mudança fundamental e sustentável no modo que as pessoas dentro da organização se relacionam entre si e com o mundo.

Sempre vale a pena preparar as pessoas, mental e emocionalmente,  para as implicações de trabalhar na nova realidade de trabalho no século 21. A otimização do potencial humano para trabalhar de forma mais integrada acaba sendo um fator crucial de sucesso ou  fracasso.

O ser humano é o começo meio e fim de qualquer processo de transformação. Unindo suas forças e atributos internos, ele é capaz de se levantar quantas vezes forem necessários para reverter situações graves.